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Ministro Carlos Ayres Britto
critica “cesarismo interno” dos
partidos políticos ao assumir
Presidência do TSE

Centro de Divulgação da Justiça
Eleitoral
Ao assumir nesta terça-feira (6)
a presidência do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), o
ministro Carlos Ayres Britto
criticou na estrutura partidária
"a prática do cesarismo
interno", a existência de
"partidos com proprietários ou
donos cartorialmente
oligarquizados, como se fossem a
mais colonial das fazendas de
gado". E adiantou que na sua
gestão o TSE vai discutir a
questão da fidelidade dos
partidos a si mesmos, aos seus
programas e aos eleitores.
O presidente do TSE adiantou
que, nos próximos dois anos, o
Tribunal vai se debruçar,
principalmente, sobre essa e
outras quatro questões.
Discutirá se o quociente
eleitoral está de acordo com o
preceito constitucional que
determina ser a vontade do
eleitor soberana; questionará se
políticos "identificados pela
tarja de processos criminais e
ações de improbidade
administrativa" podem se
candidatar; debaterá se as obras
de cunho social e de
infra-estrutura deveriam ser
paralisadas em ano eleitoral e,
por fim, discutirá se as regras
atuais sobre uso de órgãos de
comunicação social como veículo
de interação com o eleitorado
são extensíveis à mídia on-line.
Disse ainda o ministro que o
país precisa debater mais a sua
qualidade de vida política. De
acordo com ele, isso “requer, de
um lado, a eterna vigilância
contra aqueles políticos que não
perdem oportunidade para fazer
de sua caneta um pé de cabra e,
de outro, valorizar − e
valorizar por modo superlativo
− os que tornam a política a
mais essencial, a mais bonita, a
mais realizadora de todas as
vocações humanas: a vocação de
servir a todo o povo”.
A seguir, a íntegra do
pronunciamento do presidente do
TSE, Carlos Ayres Britto:
“Maquiavel dizia não bastar ao
governante a “virtu”, entendida
esta como o conjunto das
qualificações subjetivas que
tornam o ser humano bom,
honesto, devotado à causa
púbica. Era ainda necessário
possuir a “fortuna”: vale dizer,
a sorte, a ventura, o fado, a
estrela, enfim. Talvez por isso,
Napoleão, bom leitor que era e
até mesmo analista de “O
Príncipe”, não deixasse de
perguntar sobre todo e qualquer
general que lhe fosse indicado
para compor os quadros do seu
Estado-Maior: “ele tem sorte”?
Pois bem, assim começo este
discurso, não para falar que sou
um homem virtuoso, porque o
reconhecimento da virtude em
cada um de nós é juízo alheio.
Somente pode vir de fora para
dentro, e não de dentro para
fora. Mas sou um homem
extremamente afortunado, faço
questão de dizer. Um homem de
extrema sorte, por chegar à
presidência deste Tribunal
Superior Eleitoral na excelente
companhia do vice-presidente
Joaquim Barbosa e do
corregedor-geral Ari Pargendler,
esses dois ministros em cujas
personalidades se mesclam, no
mesmo tom, o caráter sem mácula
e a notabilidade do saber
jurídico. Uma grande
experiência profissional e o
mais luminoso espírito
republicano.
Digo mais: chego à presidência
desta Casa Especializada de
Justiça em verdadeiro estado de
graça, no sentido de que:
primeiro, sucedo a um presidente
organizado, incomumente operoso
e de inteligência fulgurante,
que é o ministro Marco Aurélio;
segundo, por ser especialmente
honroso e desafiante poder
seqüenciar esta boa fama da
Justiça Eleitoral: a fama de se
postar como o ramo do Poder
Judiciário que mais se
caracteriza pela sua
efetividade; ou seja, ramo
judiciário que mais celeremente
cumpre esses dois fundamentais
misteres para a qualificação de
toda a vida política brasileira:
o mister administrativo de
planejar, instruir, fiscalizar e
cabalmente realizar eleições
gerais, para em seguida lhes
apurar o resultado e diplomar os
candidatos eleitos; depois, o
mister jurisdicional de resolver
os conflitos advindos de todo
esse democrático certame. Tudo
na mais alentadora perspectiva
constitucional do respeito à
soberania do eleitor, da pureza
ético-isonômica do processo
competitivo e da autenticidade
do regime de representação
político-eletiva. Regime que não
é outro senão o da democracia
indireta ou representativa, nos
termos do parágrafo único do
art. 1º, combinado com o caput
do art. 14 da nossa
Constituição.
Com efeito, é preciso falar cada
vez mais de qualidade de vida
política para o nosso País. O
que requer, de um lado, a eterna
vigilância contra aqueles
políticos que não perdem
oportunidade para fazer de sua
caneta um pé de cabra e, de
outro, valorizar − e valorizar
por modo superlativo − os que
tornam a política a mais
essencial, a mais bonita, a mais
realizadora de todas as vocações
humanas: a vocação de servir a
todo o povo. A abertura
devocional para o serviço da
coletividade por inteiro, a todo
tempo, que o verdadeiro político
é o mais imprescindível dos
cidadãos. Se é pela religião que
se serve a Deus, a mais sublime
de todas as instâncias
espirituais, é pela política que
se serve à pólis, a mais
relevante de todas as instâncias
temporais ou seculares. Mas os
dois tipos de acompanhamento
crítico a exigir da Justiça
Eleitoral postura hermenêutica
decididamente pós-positivista,
para entendermos de uma vez por
todas que os princípios
constitucionais são normas, e,
como tais, dotadas de aptidão
para resolver conflitos em
concreto. Postura hermenêutica
de rigor científico, nunca
usurpadora da função
legislativa, ressalte-se, na
medida em que os conteúdos de
tais princípios se encontrem na
Constituição mesma. O que nos
tem possibilitado, a nós
magistrados, entre tantas outras
medidas de saneamento dos
costumes políticos brasileiros,
cobrar fidelidade dos candidatos
eleitos a seus partidos e à
própria compostura ideológica do
País, desenhada esta nas
pranchetas de cada eleição
geral. É por aí que se inicia
todo reclamo de autenticidade
representativa. Todo empenho de
“arrumar as malas para o
infinito” da nossa maturidade
institucional, como diria o
poeta maior da língua
portuguesa, Fernando Pessoa.
Acresce que “o ser das coisas é
o movimento”, já dizia
Heráclito, o grego de Éfeso,
fundador da Escola Jônica.
Movimento que a Democracia nunca
deixa de acelerar no plano das
idéias e dos sentimentos. Isto
porque ela, a Democracia, é o
único princípio de organização
do Estado e da sociedade que faz
da liberdade de expressão a
maior expressão da liberdade.
Que possibilita a quem quer que
seja dizer o que quer que seja,
acenando mais e mais com a
possibilidade de realização do
ideal rousseauniano de “todos
decidindo sobre tudo”. Donde o
avizinhar-se do enfrentamento de
novos e fundamentais
questionamentos para a
mencionada qualidade de vida
política, tais como: a
fidelidade partidária que se
exige dos candidatos eleitos não
é de se fazer acompanhar da
fidelidade dos partidos a si
mesmos, programaticamente
falando? Partidos tão mais
democraticamente autênticos
quanto livres desse nome feio
que é o mandonismo? Dessa
prática imperial que é o
cesarismo interno? Partidos com
proprietários ou donos,
cartorialmente oligarquizados?
Como se fossem a mais colonial
das fazendas de gado? E as
regras de exclusão em que se
traduzem o quociente eleitoral e
o fenômeno das sobras de votos?
Preceitos que possibilitam a
candidatos e partidos se
apropriarem de sufrágios que não
receberam da pia batismal das
urnas? São eles compatíveis com
o princípio constitucional da
soberania do eleitor? Eleitor
que vê o seu voto cair no colo
de um terceiro candidato ou um
de um partido estranho à sua
inclinação ideológica e simpatia
pessoal? E o que dizer do pedido
de registro de uma candidatura
notoriamente identificada pela
tarja de processos criminais e
ações de improbidade
administrativa que pelo seu
avultado número sinalizam um
estilo de vida do mais aberto
namoro com a delitividade? Será
que não começa por aí a
concretização da idéia-força de
que o povo merece o melhor?
Sabido que a palavra “candidato”
vem de cândido, limpo, depurado,
enquanto o vocábulo
“candidatura”, convergentemente,
não significa senão candura,
pureza, depuração
ético-representativa? E o que
pensar do instituto da suplência
em dobro para os senadores e dos
candidatos a vice-chefia do
Poder Executivo? Sua
previsibilidade constitucional é
impeditiva da identificação
deles, por nome e por foto, na
tela da urna eletrônica? Não é
chegada a hora de a Justiça
Eleitoral melhor informar o
eleitor, fisionômica e
nominalmente, quanto àqueles que
poderão até ficar no lugar dos
titulares sem, no entanto,
receber diretamente um voto
sequer? E as regras atuais sobre
o uso dos órgãos de comunicação
social como veículos de
interação com o eleitorado? São
regras extensíveis à mídia
informatizada ou exclusivamente
online? Ou esse mais recente
espaço midiático da
internetização é como que um
prolongamento da esfera de
privacidade das pessoas
naturais, e, por conseqüência,
livre de antecipada ingerência
estatal? Já atinentemente às
políticas públicas de conteúdo
social e às obras de
infra-estrutura econômica e
também de cunho social, deverão
todas elas sofrer paralisia em
ano eleitoral? Ou o princípio da
paridade de armas na obtenção do
voto popular não tem a força de
impedir os governantes de
fazerem o que lhes cabe até por
dever de ofício, que é
precisamente governar? Será que
o assunto não é daqueles em que
o Direito se faz necessariamente
orteguiano para falar de si para
si, em alto e bom, “eu sou eu e
as minhas circunstâncias”? Sem
nenhuma conclusão apriorística,
portanto? Também não é mais que
chegada a hora de a Justiça
Eleitoral fazer ver ao Congresso
Nacional que o financiamento
público das campanhas eleitorais
é medida sem a qual o suicídio
da decência é ainda a mais doce
das soluções, só para recordar o
gênio poético de Vinícius de
Moraes? Sabido que todo
caixa-dois é o madeiro em que
mais se crucifica a necessária
igualdade mínima entre os
disputantes da preferência do
eleitor? Eleitor, por sinal,
que também deve ser
didaticamente alertado de que
toda eleição popular é um
verdadeiro concurso público?
Concurso, cujos candidatos são
os políticos, naturalmente, mas
cujos examinadores são eles, os
eleitores? Eleitores que vão
conferir as notas de corte, ou,
então, as notas de aprovação dos
candidatos a cargo de
representação popular? A
significar, então, que a
indevida aprovação desse ou
daquele candidato é da
responsabilidade de cada um dos
votantes? Situação em que o povo
deixa de ser simplesmente vítima
para também se tornar cúmplice
do seu próprio desencanto com a
política? Agente funerário ou
coveiro de sua própria desgraça?
Senhores, não estou aqui
antecipando voto. Estou apenas
na linha de Umberto Eco,
agitando idéias para reflexão de
todos nós. Por que esses e
tantos outros questionamentos
que passarão a desafiar o
sentir-pensar de todos nós,
pelos próximos dois anos,
eminentes ministros Joaquim
Barbosa, Ari Pargendler, Félix
Fischer, Caputo Bastos, Marcelo
Ribeiro, Ricardo Lewandowski,
Cármen Lúcia, Fernando
Gonçalves, Aldir Passarinho
Filho, Arnaldo Versiani e
Henrique Neves. Questionamentos
que serão encarados com
desassombro e clarividência, por
certo, na medida em que
soubermos resgatar em nós a
inteireza que resulta do
equilibrado manejo dos nossos
dois hemisférios cerebrais. O
hemisfério esquerdo, que é o
lócus do pensamento; o
hemisfério direito, que é a
morada do sentimento. E de cujo
casamento por amor é
continuamente partejado o
rebento da consciência. Essa
consciência, enfim, que é o
ponto mais alto de nós mesmos, a
nos lapidar por uma forma tal
que nos possibilita picotar o
manto da noite para enxergar o
dia escondido lá dentro.
Certo, muito certo, estava
Sheakespeare, para quem,
certamente exaltando a
consciência, “a verdadeira
transformação é um porta que se
abre por dentro”.
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